MAAP #246: Garimpo ilegal de ouro em áreas protegidas na região do rio Juruena, Mato Grosso (Amazônia brasileira)

Mapa-base. Áreas afetadas por garimpo, PN Juruena e PEI do Juruena

O estado de Mato Grosso desempenha um papel fundamental na fronteira sul da Amazônia, atuando como uma zona de transição crítica entre o bioma amazônico, o Cerrado e o Pantanal. Esta localização confere ao estado uma responsabilidade singular na manutenção dos serviços ecossistêmicos regionais, servindo como um “escudo” contra o avanço do desmatamento em direção ao interior da floresta amazônica.

No entanto, o monitoramento recente do uso e cobertura da terra indica uma paisagem em rápida transformação: dados do INPE e da rede MapBiomas revelam que, enquanto outros estados da Amazônia Legal apresentam redução no desmate, Mato Grosso registrou altas recentes, com o avanço de áreas antrópicas sobre remanescentes de vegetação nativa, especialmente em regiões de expansão agropecuária e minerária.

No que tange ao ordenamento jurídico, a mineração no estado é regida por normas que, em tese, deveriam assegurar a integridade do patrimônio ambiental. Entretanto, a existência de marcos regulatórios não garante, por si só, a efetiva proteção socioambiental, uma vez que desafios relacionados à governança, à transparência e à fiscalização da atividade minerária persistem em diversos contextos amazônicos (Amazon Mining Watch, 2026). Além disso, alterações legislativas recentes — como a Lei Complementar nº 788/2024, que trata da realocação de reserva legal para fins de mineração — têm gerado debates sobre a flexibilização da proteção ambiental em propriedades privadas e o impacto indireto em áreas públicas.

Apesar do arcabouço legal, a bacia do Rio Juruena, no norte do estado de Mato Grosso, enfrenta um cenário crítico de expansão do garimpo ilegal (OPAN, 2026). A atividade garimpeira na região do Rio Juruena ocorre desde a década de 1970, quando projetos de incentivo à colonização e a construção de estradas facilitaram o acesso à região, atraindo garimpeiros de diferentes partes do Brasil (OPAN, 2026). Desde então, o garimpo passou a desempenhar um papel importante na dinâmica econômica regional, desenvolvendo-se predominantemente sem controle efetivo do poder público (OPAN, 2026). 

Desde os anos 1990 , há processos minerários na região (OPAN, 2021), e sucessivas ações de combate às atividades ilegais foram realizadas por diferentes órgãos ambientais e de segurança (2006, 2008, 2017, 2020, 2021, 2023 e 2024) . Nas últimas duas décadas, com intensificação nos anos mais recentes, a expansão da atividade garimpeira tem avançado sobre unidades de conservação (UCs) da região do Rio Juruena (Veja o Mapa-base), operando à margem das concessões da Agência Nacional de Mineração (ANM) (Figura A1). 

O Parque Nacional do Juruena e o Parque Estadual dos Igarapés do Juruena estão inseridos em uma região de alta pressão minerária, com predominância de processos em fase de requerimento no entorno imediato, indicando risco crescente de expansão da atividade mineral e intensificação de impactos indiretos sobre as unidades de conservação (Figura A1).

Figura A1: Processos minerários ativos. Fonte: Agência Nacional de Mineração (ANM, junho 2026)

Áreas protegidas ameaçadas

Esse cenário tem agravando os impactos ambientais, incluindo desmatamento, assoreamento, aumento da carga de sedimentos e matéria orgânica nos cursos d’água e a contaminação por mercúrio, o que compromete a biodiversidade e a segurança alimentar das comunidades locais. Este relatório detalha as evidências desse avanço, analisando as pressões exercidas sobre as áreas protegidas do Juruena, entre julho de 2025 e abril de 2026, e os desafios para a fiscalização e integridade territorial da região.

Parque Nacional Juruena

A distribuição espacial da atividade minerária no Parque Nacional do Juruena evidencia uma concentração na porção sudoeste da unidade de conservação (Figura B1).

Figura B1. Área afetada por garimpo no Parque Nacional Juruena. Fonte: Planet.

No Parque Nacional do Juruena, a área afetada por atividade de garimpo apresentou expressiva expansão entre 2025 e 2026 (Figura B2). Em agosto de 2025, a área impactada correspondia a 10,5 hectares, aumentando para 79,5 hectares em abril de 2026. Esse incremento representa uma expansão de 69 hectares e um crescimento de 660% em relação à área inicialmente observada. Em termos proporcionais, a área degradada em 2026 foi aproximadamente 7,6 vezes maior do que a registrada no ano anterior.

Figura B2. Evolução da área afetada por atividade de garimpo no Parque Nacional Juruena, 2025-2026. Fonte: Planet.

A identificação de acampamentos, maquinários e acessos demonstra que a atividade garimpeira no Parque Nacional do Juruena apresenta um grau de estruturação que vai além de intervenções pontuais (Figura B3).

Figura B3. Detalhe das estruturas associadas à atividade de garimpo identificadas no Parque Nacional do Juruena. Fonte: Planet.

O recorte apresentado aqui tem como foco as frentes mais recentes de expansão do garimpo identificadas no período analisado (agosto de 2025 a abril de 2026)  para o Parque Nacional Juruena, contudo os dados disponibilizados pela plataforma Amazon Mining Watch contribuem para contextualizar a dinâmica histórica da atividade minerária no Parque (Figura B4). De acordo com a plataforma, a área cumulativa afetada por mineração no interior da unidade de conservação passou de 240 hectares em 2018 para 730 hectares até junho de 2026, evidenciando um processo contínuo de avanço da atividade ao longo dos últimos anos.

Figura B4:  Resultados do Amazon Mining Watch para o Parque Nacional Juruena
Figura B5. Ação de fiscalização no PN Juruena. Fonte: ICMBio

Há registro de ação de fiscalização ambiental relacionada à atividade de garimpo identificada no PN do Juruena, no município de Nova Bandeirantes (MT) (ICMBio 2026).

Em abril de 2025, foi emitido o embargo, referente a uma área de 17,4 hectares afetada por atividade de lavra garimpeira no interior da unidade de conservação (Figura B5).

De acordo com o registro de fiscalização, a sanção foi aplicada em razão da operação de atividade utilizadora de recursos ambientais, considerada efetiva ou potencialmente poluidora, sem a devida licença do órgão ambiental competente.

A medida teve como objetivo interromper a continuidade da atividade irregular, prevenir a ampliação dos impactos ambientais e assegurar a proteção dos recursos naturais do PN do Juruena.

Segundo informações fornecidas pelo IBAMA/ICMBio, desde 2010 foram realizadas 15 operações voltadas ao combate de garimpos ilegais dentro dos limites do PN do Juruena. A última ocorreu em junho de 2026. O órgão destacou ainda que as atividades ilícitas de garimpo se acentuaram a partir de 2020.

No total, as operações resultaram em cerca de 11 autos de infração, 35 termos de apreensão de bens, 37 embargos, 32 termos de destruição ou inutilização de itens apreendidos, 3 termos de demolição e 1 termo de guarda.

Contudo, todo esse histórico de fiscalização e, mais recentemente, de autuação e embargo realizado, não tem impedido a continuidade e avanço do garimpo ilegal nessa área do PN do Juruena. Tal situação aponta para o quão crônico é o cenário, mas principalmente para a importância da manutenção do monitoramento, fiscalização e rápido combate frente a retomada dessas práticas ilegais nesta região.

Parque Estadual Igarapés do Juruena

Figura C1. Área afetada por garimpo no Parque Estadual Igarapés do Juruena. Fonte: Planet.

No Parque Estadual Igarapés (PEI) do Juruena, a atividade de garimpo ilegal encontra-se concentrada na região centro-sul da unidade de conservação (Figura C1), onde foi observada uma significativa expansão das áreas impactadas entre 2025 e 2026.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A área afetada por garimpo no Parque Estadual Igarapés do Juruena passou de 8,6 hectares em junho de 2025 para 43,7 hectares em março de 2026, correspondendo a um incremento de 408%, evidenciando a rápida intensificação da atividade garimpeira no período (Figura C2).

Figura C2. Evolução da área afetada por atividade de garimpo no Parque Estadual Igarapés do Juruena, 2025-2026 . Fonte: Planet.

A presença de acampamentos, maquinários e acessos no Parque Estadual do Juruena indica a formação de uma infraestrutura mínima de apoio à extração, sugerindo um padrão de ocupação mais estruturado e potencialmente contínuo, com implicações diretas sobre a integridade ambiental da área protegida (Figura C3).

Figura C3. Detalhe das estruturas associadas à atividade de garimpo identificadas no Parque Estadual Igarapés do Juruena. Fonte: Planet.
Figura C4. Ações de fiscalização ambiental em PEI do Juruena. Fonte: SEMA-MT, maio 2026

Em relação às ações de fiscalização ambiental relacionadas à atividade de garimpo nessa região do PE Igarapés do Juruena, foi identificado um auto de infração, emitido pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso (SEMA-MT) em agosto de 2020 e direcionado a imóvel rural sobreposto a essa região, no município de Colniza/MT (Figura C4).

Posteriormente, em setembro de 2025, consta a emissão de mais um auto de infração pela SEMA-MT em razão da extração mineral sem licença ambiental, resultando na aplicação de multa administrativa. Em 26 de março de 2026, foi emitido o Termo de Embargo para a área em questão, com registro no Cadastro Ambiental Rural (Figura C4).

A medida determinou a suspensão de todas as atividades em uma área de 13,7 hectares em decorrência do desmatamento não autorizado de vegetação nativa em Área de Reserva Legal (ARL) e da realização de atividade de garimpo sem licença ambiental. O embargo teve como objetivo interromper a degradação ambiental, prevenir a ampliação dos impactos sobre a unidade de conservação e promover a recuperação da área afetada.

A sequência de autuações e medidas administrativas, inicialmente em 2020 e, posteriormente em 2025 e 2026, evidencia a recorrência de ações de fiscalização na área e a persistência de pressões associadas à atividade garimpeira sobre o PE Igarapés do Juruena. Nesse cenário, é fundamental o monitoramento constante e a adoção de respostas rápidas de combate em campo para evitar o retorno e ampliação das práticas de garimpo ilegal.

 

Implicações para Políticas Públicas

A ocorrência de atividades ilegais de exploração de recursos naturais, como o garimpo, no interior de unidades de conservação (UCs) de Proteção Integral, aponta para limitações nos mecanismos de fiscalização e controle dessas áreas. Esse cenário é especialmente preocupante na região do Rio Juruena, onde a expansão da atividade garimpeira tem avançado sobre áreas protegidas, gerando impactos como desmatamento, assoreamento dos cursos d’água, aumento da carga de sedimentos e contaminação por mercúrio.

O Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), instituído pela Lei nº 9.985/2000, em seu artigo 11, §1º, da lei estabelece que nas categorias de Proteção Integral – como Estações Ecológicas, Reservas Biológicas, Parques Nacionais, Monumentos Naturais e Refúgios de Vida Silvestre – é admitido apenas o uso indireto dos recursos naturais, como para fins de pesquisa, turismo e educação ambiental. Nesse sentido, a permanência de atividades de mineração ou garimpo nessas áreas contraria as disposições da Constituição Federal e do SNUC, e compromete a integridade ecológica desses territórios.

Atualmente, conforme apontam dados do Amazon Mining Watch, as ocorrências de mineração e garimpo identificadas no interior das UCs na região do Juruena correspondem a atividades realizadas fora de concessão minerária autorizada, o que indica elevada presunção de ilegalidade. Embora existam instrumentos legais que regulam a atividade minerária e estabelecem restrições para o uso dos recursos naturais em UCs de Proteção Integral, a ocorrência de garimpo fora das áreas autorizadas pela Agência Nacional de Mineração (ANM) evidenciam fragilidades nos mecanismos de controle, fiscalização e acompanhamento das medidas de proteção territorial. 

Diante desse cenário, se faz necessário o fortalecimento dos mecanismos de fiscalização e monitoramento das UCs. A adoção de uma plataforma integrada de informações geoespaciais, combinando sistemas de alerta por imagens de satélite com dados atualizados sobre concessões minerárias e limites de áreas protegidas, como UCs e TIs, poderia contribuir para o monitoramento e resposta mais efetiva por parte do poder público. Além disso, é necessário fortalecer a atuação dos órgãos responsáveis pela fiscalização, de modo a reduzir a expansão e a retomada de atividades garimpeiras na região.

Nesse contexto, melhorias na plataforma Cadastro Mineiro, gerenciada pela ANM, poderiam representar um avanço relevante na transparência e no controle territorial sobre a atividade minerária na região do Juruena, bem como em outros territórios sob pressão de garimpo em Mato Grosso. Dentre essas melhorias, está a unificação de informações disponíveis no Cadastro Minério, no Sistema de Informações Geográficas da Mineração (SIGMINE) e no portal geográfico do Serviço Geológico do Brasil (SGB). Isso permitiria, por exemplo, a integração de camadas minerárias e geológicas em um mesmo ambiente de mapa, juntamente com informações mais completas dos processos minerários, tais como o histórico da tramitação. Outras potenciais melhorias passam pela possibilidade de emissão de certidões, uma vez integrados o Cadastro Mineiro e o SIGMINE, e os cruzamentos automáticos de polígonos de concessões minerárias, com áreas protegidas e territórios indígenas, facilitando a identificação de sobreposições, inconsistências e possíveis irregularidades. Uma referência para implementação dessas melhorias pode ser o sistema GeoCatmin, do Peru. Além de fortalecer a capacidade de fiscalização por parte do Estado, uma ferramenta pública e integrada desse tipo ampliaria o acesso à informação para a sociedade civil e instituições de pesquisa, contribuindo para a governança ambiental, a prevenção de ilícitos e a resposta mais ágil a pressões sobre áreas de alta relevância socioambiental.

Diante da recorrência das práticas de garimpo e dos impactos ambientais severos que elas geram, é fundamental que as autoridades intensifiquem as medidas de monitoramento, fiscalização e repressão, garantindo a proteção efetiva das Unidades de Conservação da região do Juruena e a conservação de sua biodiversidade.

Metodologia

A identificação das áreas de desmatamento associadas à mineração de ouro na Amazônia Meridional Brasileira, com foco no Parque Nacional do Juruena e no Parque Estadual Igarapés do Juruena, foi realizada a partir dos alertas de desmatamento por mineração disponibilizados pela Amazon Conservation para o período de junho de 2025 a abril de 2026.

A verificação dos alertas, a delimitação das áreas afetadas e a caracterização da infraestrutura associada ao garimpo ilegal foram conduzidas por meio da interpretação visual de imagens de satélite de altíssima resolução espacial (SkySat, 50 cm). A análise considerou elementos característicos da atividade garimpeira, tais como vias de acesso, acampamentos, maquinário e demais estruturas de apoio à mineração.

Além da análise das áreas impactadas, foram realizadas consultas ao GeoPortal da Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso (SEMA-MT) com o objetivo de identificar ações de fiscalização incidentes sobre as áreas afetadas por garimpos no Parque Estadual Igarapés do Juruena. 

Para o Parque Nacional do Juruena, foram consultadas as plataformas e bases de dados dos órgãos federais responsáveis pela gestão e fiscalização da unidade, incluindo a Plataforma Geoserviços do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o portal Pamgia do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Foram pesquisados registros de ações de fiscalização relacionadas à atividade garimpeira na área de estudo, tais como autos de infração, embargos e demais medidas administrativas aplicadas pelos órgãos competentes.

Referências

  1. ANM. AGÊNCIA NACIONAL DE MINERAÇÃO (ANM). Dados geoespaciais de processos minerários – SIGMINE. Disponível em: https://geo.anm.gov.br/portal/apps/webappviewer/index.html?id=6a8f5ccc4b6a4c2bba79759aa952d908. Acesso em: 24 jun. 2026. 
  2. BRASIL. Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000. Dispõe sobre o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9985.htm. Acesso em: 15 jun. 2026.
  3. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 15 jun. 2026.
  4. ICMBio. INSTITUTO CHICO MENDES DE CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE. 2026. Dados geoespaciais – Autos de infração (shapefile). Disponível em: https://www.gov.br/icmbio/pt-br/dados-icmbio/dados_geoespaciais/mapa-tematico-e-dados-geoestatisticos-das-unidades-de-conservacao-federais/autos_infracao_icmbio_shp.zip. Acesso em: 02 jun. 2026. 
  5. EARTH GENOME. Amazon Mining Watch. 2022. Disponível em: https://amazonminingwatch.org/. Acesso em: 15 jun. 2026.
  6. OPAN. OPERAÇÃO AMAZÔNIA NATIVA. 2026. Boletim de pressões e ameaças às terras indígenas na bacia do rio Juruena. Cuiabá: OPAN. Disponível em: https://amazonianativa.org.br/pub/boletim-de-pressoes-e-ameacas-as-terras-indigenas-na-bacia-do-rio-juruena-2/. Acesso em: 29 jun. 2026. 
  7. OPAN. OPERAÇÃO AMAZÔNIA NATIVA. 2021. Processos minerários na bacia do rio Juruena: implicações para os povos indígenas e a conservação da biodiversidade. Cuiabá: OPAN. Disponível em: https://amazonianativa.org.br/wp-content/uploads/2021/12/OPAN_RT_Processos-minerarios-Juruena-v4.pdf. Acesso em: 25 jun. 2026.
  8. SEMA. Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso. 2026. Geoportal – Autos de Infração e Embargos. Disponível em: https://geoportal.sema.mt.gov.br/. Acesso em: 13 mai. 2026.

Agradecimentos

Este relatório foi produzido em colaboração com a organização brasileira Instituto Centro de Vida (ICV) e com o apoio da Gordon and Betty Moore Foundation.

MAAP #240: Expansão da mineração ilegal de ouro na Bacia do Xingu, na Amazônia brasileira (parte 2. Unidades de Conservação)

Base Map. Mining sites in the Xingu Socio-environmental Diversity Corridor. Data: ACA/MAAP, ISA.

Apresentamos a segunda parte de uma série em duas edições sobre o desmatamento causado pela mineração ilegal de ouro na Bacia do Rio Xingu, localizada na porção leste da Amazônia brasileira (estados do Pará e Mato Grosso). Este relatório analisa as operações de mineração em unidades de conservação do Xingu, enquanto a Parte 1 abordou os territórios indígenas (ver MAAP #239)

A Bacia do Xingu concentra a maior ocorrência histórica de desmatamento associado à mineração de ouro na Amazônia brasileira (ver MAAP nº 235). No coração dessa bacia está o Corredor de Diversidade Socioambiental do Xingu, um dos maiores blocos contínuos de florestas designadas do planeta (mais de 26 milhões de hectares) conectando 24 territórios indígenas e 9 unidades de conservação (ver Mapa Base). Apesar das designações oficiais, a região segue ameaçada, sobretudo pela expansão das operações de mineração ilegal de ouro impulsionadas pelos preços recordes do metal.

Para enfrentar esse cenário, foi criada a Rede Xingu+, uma aliança política formada por uma coalizão de organizações que representam a região. A rede monitora mensalmente o desmatamento e outras pressões no Corredor do Xingu, utilizando tecnologia de radar por meio do sistema SiRAD X (link).

Em 2025, a Rede Xingu+ estabeleceu uma parceria com a Amazon Conservation, viabilizando o acesso a imagens de satélite de alta resolução (da Planet), o que permitiu validar alertas e identificar vetores de pressão. Essa colaboração também incorpora a plataforma online Amazon Mining Watch (AMW).

Ambos os sistemas, o SiRAD X e o AMW, detectaram uma grande expansão do desmatamento por mineração de ouro desde 2018 no Corredor Xingu, incluindo a continuidade de atividades ilegais ao longo de 2025. Ao longo do relatório, apresentamos dados de ambos os sistemas, observando suas pequenas diferenças decorrentes de metodologias distintas (Nota 1), embora os padrões gerais sejam consistentes entre os dois conjuntos de dados.

Os dois sistemas de monitoramento detectaram desmatamento recente por mineração em seis unidades de conservação do Corredor Xingu (Nota 2), além dos cinco territórios indígenas reportados na Parte 1.

Na Parte 1, detalhamos o desmatamento recente por mineração de ouro em três desses territórios indígenas (Kuruaya, Baú e Kayapó). 

Já nesta Parte 2, focamos o desmatamento recente por mineração de ouro em três dessas unidades de conservação (a Floresta Nacional de Altamira, a Estação Ecológica da Terra do Meio e a Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo) no Corredor Xingu, incluindo a apresentação de uma série de imagens de alta resolução.

O mapa de base indica as áreas de foco desta série, sendo que os pontos A a C foram abordados no primeiro relatório (territórios indígenas) e os pontos D a F no presente segundo relatório (áreas protegidas).

Mineração em Unidades de Conservação

Floresta Nacional de Altamira

A Floresta Nacional de Altamira, no estado do Pará, vem registrando a expansão da mineração ilegal em três áreas, com aumentos expressivos ao longo de 2025.

A atividade minerária teve início nas porções noroeste e oeste entre 2016 e 2018, alcançando 832 hectares desmatados até setembro de 2025. A Figura D1 ilustra o desmatamento recente por mineração na porção oeste, comparando outubro de 2024 (painel esquerdo) e setembro de 2025 (painel direito). Embora existam pedidos de pesquisa mineral para essas áreas, a mineração não é permitida pelo Plano de Manejo nem pelo decreto de criação da unidade (Decreto nº 2.483/1998).

Consultar a Nota 3 para comparação com o AMW.

Figura D1 Dados: Planet, NICFI

Na porção sudeste, a mineração começou em 2024 e atingiu um total acumulado de 36 hectares até outubro de 2025, segundo o monitoramento da Rede Xingu+. A mineração de ouro nessa área correspondeu a 45,7% do desmatamento por mineração registrado em 2025 dentro da FLONA, com pico de expansão em junho. A Figura D2 mostra o desmatamento recente por mineração nessa porção, entre setembro de 2024 (painel esquerdo) e setembro de 2025 (painel direito).

Figura D2 Dados: Planet, NICFI

Estação Ecológica da Terra do Meio

A Estação Ecológica da Terra do Meio desponta como uma nova frente de mineração. Identificada pela primeira vez em setembro de 2024, as operações de mineração expandiram-se rapidamente, alcançando um total acumulado de 30 hectares até o final de 2025, segundo o monitoramento da Rede Xingu+ (ver Nota 4 para comparação com o AMW). A Figura E ilustra essa expansão entre dezembro de 2024 (painel esquerdo) e setembro de 2025 (painel direito).

Embora a Estação Ecológica da Terra do Meio enfrente outras atividades ilegais, como o desmatamento, a presença de operações de mineração ilegal dentro de seus limites é particularmente preocupante. Esse caso não apenas evidencia o grau de avanço dos infratores sobre uma área de proteção integral, como também revela sua elevada capacidade operacional. Essa combinação aumenta o risco de expansão da atividade, com potencial para causar degradação ambiental em outras partes da unidade de conservação.

Figure E. Data: Planet, NICFI

Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo

A Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo está estrategicamente localizada ao longo da rodovia BR-163, no estado do Pará. Trata-se de uma unidade de proteção integral criada pelo Decreto de 20 de maio de 2005, situada entre os municípios de Altamira e Novo Progresso, na região entre os rios Tapajós e Xingu, e adjacente às Terras Indígenas Menkragnoti e Panará em sua porção leste.

A mineração ilegal na Reserva Biológica passou a se expandir sobretudo a partir de janeiro de 2025. Naquele momento, o ponto de mineração – que anteriormente ocupava uma área de dois hectares – foi objeto de denúncia registrada no Ofício nº 01/2025 pela Rede Xingu+. Em junho, a atividade voltou a ser reportada por meio do Ofício nº 15/2025, após uma expansão de 18 hectares, e, em julho, pelo Ofício nº 18/2025, após nova ampliação de 6,82 hectares, totalizando 26,82 hectares.

Dois pontos de mineração estão localizados na porção nordeste da Rebio, abertos em novembro de 2024 e março de 2025, e um terceiro ponto situa-se na porção leste, aberto em junho de 2025. Vale destacar que o ponto localizado na região leste também foi objeto de denúncia registrada no Ofício nº 18/2025, por estar situado sobre – e causando poluição em – um afluente do rio Pitxatxá, curso d’água que margeia a Terra Indígena Menkragnoti e onde se encontram seis aldeias do povo Kayapó.

A mineração ilegal teve início em dezembro de 2024, expandindo-se para um total acumulado de 19 hectares até setembro de 2025, distribuídos por diferentes áreas da unidade de conservação, segundo o monitoramento da Rede Xingu+ (ver Nota 5 para comparação com o AMW).

A Figura F1 mostra o desmatamento recente por mineração na porção nordeste da Reserva Biológica, entre dezembro de 2024 (painel esquerdo) e novembro de 2025 (painel direito).

Figura F1 Dados: Planet, NICFI

A Figura F2 mostra o desmatamento recente por mineração na porção leste da Reserva Biológica, entre junho de 2025 (painel esquerdo) e novembro de 2025 (painel direito).

Figura F2 Dados: Planet, NICFI

A Figura F3 mostra uma nova pista de pouso (aberta em agosto de 2025) na porção leste da Reserva Biológica, entre junho de 2025 (painel esquerdo) e novembro de 2025 (painel direito).

Figure F3 Data: Planet, NICFI

Conclusão e Recomendações

Com base nas informações apresentadas acima (e no relatório anterior MAAP nº 239) fica evidente que a mineração ilegal na Bacia do Xingu não é uma atividade isolada. Ela se disseminou tanto em territórios indígenas quanto em unidades de conservação, avançando para novas áreas e revelando a existência de uma rede de apoio que fornece a capacidade operacional e a infraestrutura necessárias para sustentar essa expansão. A mineração ilegal representa uma ameaça direta às áreas protegidas, tanto pelo desmatamento quanto pela contaminação dos rios pelo uso de mercúrio, afetando ecossistemas sensíveis e as populações que dependem desses recursos. 

A seguir, apresentamos um conjunto de recomendações às autoridades brasileiras relacionadas a: (i) ações de fiscalização; (ii) monitoramento e restauração; e (iii) rastreabilidade das cadeias de fornecimento de ouro.

(i) Ações de fiscalização:

Ações de fiscalização isoladas não têm garantido a proteção de longo prazo das Unidades de Conservação. Por isso, é essencial implementar uma estratégia coordenada entre diferentes órgãos para desmantelar a estrutura logística que sustenta e alimenta a mineração ilegal. Paralelamente, é fundamental estruturar medidas preventivas.

  • Estabelecer bases avançadas permanentes (operadas por órgãos como o ICMBio) nas áreas protegidas mais críticas, garantindo presença contínua para impedir a reocupação das áreas pelos garimpeiros após operações de fiscalização.
  • Concentrar esforços na desativação de pistas de pouso e na apreensão de maquinário pesado (como escavadeiras hidráulicas) dentro das áreas protegidas, em coordenação com a ANAC e a ANP, para bloquear aeródromos clandestinos e pontos de abastecimento no entorno.
  • Reforçar a fiscalização no entorno das áreas protegidas para evitar que atividades de mineração legalizadas nas proximidades funcionem como fachada para a extração ilegal dentro dos limites das unidades, com participação da ANM e apoio de outros órgãos.

(ii) Monitoramento e restauração

Fortalecer a vigilância e a recuperação ambiental é essencial para desencorajar o retorno de garimpeiros ilegais.

  • Apoiar conselhos consultivos/deliberativos e associações de populações ribeirinhas e tradicionais na implementação de protocolos de vigilância, reconhecendo o papel dessas comunidades na manutenção da integridade das unidades de conservação de uso sustentável.
  • Implementar Planos de Recuperação de Áreas Degradadas (PRADs) voltados à revegetação de matas ciliares e à contenção do assoreamento causado por sedimentos do garimpo. Nas áreas federais, a responsabilidade recai sobre o ICMBio; nas unidades estaduais de conservação, sobre o Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (IDEFLOR-Bio).

(iii) Rastreabilidade das cadeias de fornecimento de ouro

Implementar um sistema de cruzamento de dados que bloqueie automaticamente a emissão de Notas Fiscais Eletrônicas (NF-e) para minerais cuja origem declarada se sobreponha a polígonos de Áreas Protegidas. Aperfeiçoar a legislação referente à documentação da área de origem nos mecanismos de rastreabilidade, dificultando o “esquentamento” de minerais extraídos ilegalmente de Unidades de Conservação.

Observações

1. Metodologia dos sistemas de monitoramento

Para o monitoramento do Sirad X, são utilizadas imagens de radar do satélite Sentinel-1, processadas por uma série de algoritmos na plataforma Google Earth Engine (GEE), juntamente com imagens ópticas dos satélites Landsat-9 (sensor OLI-2) e Sentinel-2 (sensor MSI). Uma equipe de analistas examina a área monitorada, buscando visualmente anomalias nas imagens produzidas. Cada polígono de desmatamento é avaliado com base em sua proximidade de outras áreas de degradação e no histórico da região e, quando necessário, pessoas familiarizadas com o local são contatadas para confirmar o desmatamento. O conhecimento direto da área é fundamental para a validação dos dados.

Para o Amazon Mining Watch, o detector de minas é uma rede neural artificial treinada para distinguir áreas de mineração de outros tipos de terreno, a partir de exemplos rotulados manualmente que mostram minas e outros elementos relevantes tal como aparecem nas imagens do satélite Sentinel-2. A rede opera sobre blocos quadrados de dados extraídos do produto Sentinel-2 L1C. Cada pixel do bloco registra a luz refletida da superfície terrestre em doze bandas do espectro visível e infravermelho. Os dados do Sentinel são combinados (mediana composta) ao longo de vários meses para reduzir a presença de nuvens, sombras de nuvens e outros efeitos transitórios. Durante a execução, a rede avalia cada bloco em busca de sinais de atividade mineradora recente, e a região de interesse é então deslocada pela metade da largura do bloco para que a rede faça uma nova avaliação. Esse processo se repete até cobrir toda a área de interesse.

Comparações com a Amazon Mining Watch

  1. Floresta Nacional de Altamira, Estação Ecológica da Terra do Meio, Floresta Estadual do Iriri, Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio, Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo e Reserva Extrativista Rio Iriri.
  2. Para comparação, o Amazon Mining Watch indica um total de 620 hectares de desmatamento por mineração na Floresta Nacional de Altamira entre 2018 e 2025.
  3. Para comparação, o Amazon Mining Watch indica um total de 3 hectares de desmatamento por mineração na Estação Ecológica da Terra do Meio entre 2018 e 2025.
  4. Para comparação, o Amazon Mining Watch indica um total de 51 hectares de desmatamento por mineração na Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo entre 2018 e 2025.

Agradecimentos

Este relatório faz parte de uma série dedicada à extração do ouro na Amazônia, desenvolvida por meio de uma colaboração estratégica entre a Amazon Conservation e parceiros regionais, com apoio da Gordon and Betty Moore Foundation. Neste caso, agradecemos ao nosso parceiro Instituto Socioambiental (ISA) pela liderança na elaboração deste relatório.

MAAP #211: Estradas ilegais e desmatamento em reservas indígenas e parques nacionais da Amazônia colombiana

Mapa base. Estradas ilegais causando desmatamento recente na Reserva Indígena Llanos del Yari-Yaguara II e no Parque Nacional Chiribiquete adjacente. Dados: MAAP/ACA, FCDS.

Estradas ilegais são uma grande ameaça à Amazônia colombiana, muitas vezes abrindo florestas primárias remotas para os principais causadores do desmatamento: pastagens para gado, grilagem de terras e produção de coca.

Essas estradas ilegais ameaçam áreas protegidas (incluindo parques nacionais) e territórios indígenas (conhecidos como Resguardos na Colômbia).

Em 2024, em colaboração com nosso parceiro colombiano FCDS , documentamos esses impactos em duas áreas importantes no coração da Amazônia colombiana: a Reserva Indígena Llanos del Yari-Yaguara II e o adjacente Parque Nacional Chiribiquete (ver Mapa Base ).

Mais notavelmente, na Reserva Indígena Llanos del Yari-Yaguara II , vemos a construção de uma nova estrada, causando desmatamento maciço de florestas primárias, tanto dentro quanto adjacentes ao território (856 hectares, ou 2.115 acres, no total).

No Parque Nacional de Chiribiquete , vemos a expansão do desmatamento de 64 hectares (158 acres) ao longo de uma estrada ilegal que penetra no setor noroeste desta importante área protegida.

Abaixo, mostramos imagens de satélite para ambos os casos.

Reserva Indígena Llanos del Yari- Yaguara II

Desde março de 2023, uma nova estrada ilegal de 14 quilômetros foi construída nesta área, dos quais 5,3 km estão dentro do setor nordeste da Reserva Indígena Llanos del Yari-Yaguara II, localizada no departamento de Guaviare. As Figuras 1 e 2 mostram que esta construção causou desmatamento massivo: 856 hectares (2.115 acres), dos quais 394 hectares estão dentro da Reserva, entre fevereiro de 2023 (painel esquerdo) e março de 2024 (painel direito). Este desmatamento é presumivelmente para novas pastagens para gado, facilitado pela nova estrada. Observe que a Figura 1 mostra as imagens de satélite sem marcações, enquanto a Figura 2 adiciona marcações para a construção ilegal da estrada e o desmatamento associado.

Figura 1. Desmatamento ao longo da nova estrada ilegal na Reserva Indígena Llanos del Yari- Yaguara II, sem demarcações. Dados: Planet, NICFI.

Figura 2. Desmatamento ao longo da nova estrada ilegal na Reserva Indígena Llanos del Yari- Yaguara II, com marcações. Dados: Planet, NICFI.

Parque Nacional Chiribiquete

No setor noroeste adjacente do Parque Nacional Chiribiquete, o desmatamento continua a se expandir ao longo de uma estrada ilegal existente, conhecida como estrada Tunia-Ajaju , localizada no departamento de Caquetá.  As Figuras 3-6 mostram o desmatamento de 64 hectares (56 hectares na zona B e 8 hectares na zona C) ao longo desta estrada dentro do parque nacional, entre março de 2023 (painel esquerdo) e março de 2024 (painel direito). Este desmatamento é presumivelmente para novas pastagens de gado, facilitadas pela estrada. Observe que as Figuras 3 e 5 mostram as imagens de satélite sem marcações, enquanto as Figuras 4 e 6 adicionam marcações para a construção ilegal da estrada e o desmatamento associado.

Figura 3. Desmatamento ao longo da nova estrada ilegal no Parque Nacional Chiribiquete (zona B), sem marcações. Dados: Planet, NICFI.
Figura 4. Desmatamento ao longo da nova estrada ilegal no Parque Nacional Chiribiquete (zona B), com marcações. Dados: Planet, NICFI.
Figura 5. Desmatamento ao longo da nova estrada ilegal no Parque Nacional Chiribiquete (zona C), sem marcações. Dados: Planet, NICFI.
Figura 6. Desmatamento ao longo da nova estrada ilegal no Parque Nacional Chiribiquete (zona C), com marcações. Dados: Planet, NICFI

Citação

Finer M, Ariñez A (2024) Estradas ilegais e desmatamento em reservas indígenas e parques nacionais da Amazônia colombiana. MAAP: 211

 

MAAP #200: Estado da Amazônia em 2023

Figura 1. Visão mais recente sem nuvens de todo o bioma Amazônia (2023, trimestre 3). Dados: Planet, NICFI, ACA/MAAP.

O primeiro relatório do MAAP , publicado em março de 2015, analisou detalhadamente o crescente desmatamento da mineração de ouro na Amazônia peruana.

Os 198 relatórios a seguir, nos últimos 8,5 anos, continuaram a examinar as questões mais urgentes relacionadas ao desmatamento na Amazônia.

Em nosso 200º relatório , fornecemos nossa avaliação rápida do estado atual da Amazônia.

No geral, a situação é terrível, com a Amazônia se aproximando de dois pontos críticos de inflexão induzidos pelo desmatamento . O primeiro é a amplamente temida conversão de florestas tropicais úmidas em savanas mais secas, devido à diminuição da reciclagem de umidade na Amazônia (veja MAAP #164 ). O segundo é a mais recentemente temida conversão da Amazônia como um sumidouro crítico de carbono amortecendo a mudança climática global, para uma fonte de carbono que a alimenta (veja MAAP #144 ).

Há motivos para esperança, no entanto. É possível proteger o núcleo da Amazônia a longo prazo, já que quase metade agora é designada como áreas protegidas e territórios indígenas , ambos com taxas de desmatamento muito mais baixas do que as áreas vizinhas (veja MAAP #183 ). Além disso, novos dados da NASA revelam que a Amazônia ainda abriga reservas abundantes de carbono nessas áreas centrais (veja MAAP #160 e MAAP #199 ).

Também no front de notícias positivas, relatamos recentemente uma grande redução (mais da metade) na perda de floresta primária entre o ano atual de 2023 e o ano passado de 2022 em toda a Amazônia, especialmente no Brasil e na Colômbia ( MAAP #201 ).

Muito se fala sobre os incêndios na Amazônia na mídia, mas nos últimos anos revelamos que a grande maioria dos grandes incêndios na Amazônia (nomeadamente, no Brasil, Bolívia, Peru e Colômbia) estão, na verdade, queimando áreas recentemente desmatadas ( MAAP #168 ). É somente durante as intensas estações secas que alguns desses incêndios escapam e se tornam incêndios florestais reais.

A Figura 1 mostra a visão mais recente sem nuvens de todo o bioma da Amazônia. No lado positivo, pode-se ver claramente que o núcleo da Amazônia ainda está de pé. No lado negativo, no entanto, o desmatamento em expansão ao redor das bordas é evidente.

Principais Frentes de Desmatamento – 2023

Nesta seção, revisamos as principais frentes atuais de desmatamento na Amazônia.

A Figura 2 indica essas frentes (inserções AH) em relação aos dados de hotspots de desmatamento nos últimos 8 anos durante o período de monitoramento ativo do MAAP (2015-2022). Abaixo, descrevemos cada área de desmatamento, por país. Os drivers comuns em vários países da Amazônia incluem estradas ( MAAP #157 ), agricultura ( MAAP #161 ), gado e mineração de ouro ( MAAP #178 ).

Observe também que, mais abaixo, no Anexo , mostramos a ordem relativa da perda total de floresta primária na Amazônia por país nos últimos dois anos: Brasil, de longe, o mais alto, seguido por um grupo intermediário de Bolívia, Peru e Colômbia, seguido por níveis mais baixos na Venezuela, Equador, Suriname, Guiana e Guiana Francesa.

Figura 2. Pontos críticos de perda florestal na Amazônia, 2015-2022. Dados: UMD, Planet/NICFI, ACA/MAAP.

Amazônia brasileira

Figura 3. Principais pontos críticos de perda florestal na Amazônia brasileira. Dados: UMD, Planet/NICFI, ACA/MAAP.

O Brasil continua sendo, de longe, a principal fonte de desmatamento na Amazônia ( MAAP #187 ), liderado por três principais fatores: expansão de pastagens para gado perto de estradas, plantações de soja e mineração de ouro.

O desmatamento para novas pastagens para gado está concentrado ao longo das extensas redes rodoviárias que abrangem o leste e o sul da Amazônia brasileira (por exemplo, Inserção A).

O desmatamento para expansão de plantações de soja está concentrado no sudeste da Amazônia brasileira (Inserto B; ver MAAP #161 ).

O desmatamento da mineração de ouro afeta vários locais, incluindo vários territórios indígenas (por exemplo, Inserção C; veja MAAP #178 ).

Amazônia boliviana

Figura 4. Principais pontos críticos de perda florestal na Amazônia boliviana. Dados: UMD, Planet/NICFI, ACA/MAAP.

A Bolívia emergiu como a segunda principal fonte de desmatamento na Amazônia, com uma grande tendência crescente nos últimos dois anos ( MAAP #187 ).

O desmatamento está concentrado na fronteira da soja localizada no sudeste (Inserto D, ver MAAP #179 ).

Note que, cada vez mais, esse desmatamento de soja é realizado por colônias menonitas ( MAAP #180 ). Revelamos que os menonitas causaram o desmatamento de mais de 210.000 hectares desde 2001, incluindo 33.000 hectares desde 2017.

Amazônia peruana

Figura 5. Principais pontos críticos de perda florestal na Amazônia peruana. Dados: UMD, Planet/NICFI, ACA/MAAP.

O Peru é a terceira maior fonte de desmatamento na Amazônia ( MAAP #187 ).

Na Amazônia central, temos destacado o rápido desmatamento para  novas colônias menonitas  (ver  MAAP #188 ). Os relatórios do MAAP revelaram, em tempo real, que o desmatamento menonita cresceu de zero em 2016 para 3.400 hectares em 2021, para 4.800 hectares em 2022 e para 7.032 hectares em 2023.

No sul da Amazônia, o desmatamento por mineração de ouro continua sendo uma das principais causas de desmatamento, principalmente em comunidades indígenas, zonas de amortecimento de áreas protegidas e dentro do Corredor de Mineração oficial ( MAAP #185 ). Mais recentemente, mostramos que a mineração de ouro causou o desmatamento em quase 24.000 hectares entre apenas 2021 e 2023 ( MAAP #195 ).

Amazônia Colombiana

Figura 6. Principais pontos críticos de perda florestal na Amazônia colombiana. Dados: UMD, Planet/NICFI, ACA/MAAP.

A Colômbia é a quarta maior fonte de desmatamento na Amazônia.

O desmatamento na Colômbia aumentou após o acordo de paz de 2016 entre o governo colombiano e o grupo guerrilheiro FARC ( MAAP #120 ), mas foi o único país com uma redução notável no desmatamento em 2022 ( MAAP #187 ).

A perda florestal está concentrada em um “arco de desmatamento” ao redor de inúmeras Áreas Protegidas (como os Parques Nacionais de Chiribiquete, Tinigua e Macarena) e Reservas Indígenas.

Na Colômbia, o principal impulsionador direto do desmatamento é o pasto para gado, mas essa expansão é causada em grande parte pela grilagem de terras como um impulsionador indireto crítico. As plantações de coca também continuam a ser um impulsionador direto importante em certas áreas remotas.

Tanto o gado quanto a coca estão impactando áreas protegidas, especialmente os Parques Nacionais Tinigua e Chiribiquete (gado); e o Parque Nacional Macrarena e a Reserva Natural Nacional Nukak (coca).

 

Amazônia equatoriana

Figura 7. Principais pontos críticos de perda florestal na Amazônia equatoriana. Dados: UMD, Planet/NICFI, ACA/MAAP, RAISG.

Embora represente apenas 1% da perda total na Amazônia, o desmatamento na Amazônia equatoriana foi o  maior já registrado  em 2022 (18.902 hectares), um aumento impressionante de 80% desde 2021.

Existem vários focos de desmatamento causados ​​pela mineração de ouro (ver  MAAP #182 ), expansão de plantações de dendezeiros e agricultura de pequena escala.

Amazônia venezuelana

Há um ponto crítico de desmatamento causado pela  mineração de ouro no Parque Nacional Yapacana  (ver  MAAP #173MAAP #156MAAP #169 ).

Amazônia venezuelana

Há um ponto crítico de desmatamento causado pela  mineração de ouro no Parque Nacional Yapacana  (ver  MAAP #173MAAP #156MAAP #169 ).

Anexo: Perda de Floresta Primária na Amazônia (Por País), 2021-2022

Acknowledgments

We deeply thank the following funders for supporting MAAP over the past 10 years:
International Conservation Fund of Canada (ICFC)
Norwegian Agency for Development Cooperation (NORAD)
United States Agency for International Development (USAID)
MacArthur Foundation
Andes Amazon Fund (AAF)
Wyss Foundation
Erol Foundation
Global Forest Watch/World Resources Institute
Overbrook Foundation
Global Conservation

We also thank our key data providers:
Planet (optical satellite imagery)
University of Maryland (automated forest loss alerts)
Global Forest Watch (portal featuring integrated forest loss alerts)
NICFI monthly mosaics
CLASlite (our original forest loss detection tool)

Citation

Finer M, Mamani N, Novoa S, Ariñez A (2023) State of the Amazon in 2023. MAAP: 200.

 

MAAP #195: Desmatamento da mineração de ouro na Amazônia peruana do sul, 2021-2023

Figura 1. Desmatamento recente no Corredor de Mineração da região de Madre de Dios, no sul da Amazônia peruana (zona de Guacamayo). Dados: Planet.

No contexto geral da mineração de ouro na Amazônia , onde a mineração ilegal é desenfreada, o sul do Peru é um estudo de caso importante, visto que o governo criou o “ Corredor de Mineração ”, onde a mineração é permitida para organizar e promover essa atividade.

Nesta grande área, oficialmente conhecida como “Zona de mineração artesanal e de pequena escala no departamento de Madre Dios”, a atividade de mineração pode ser formal, informal ou ilegal , dependendo da localização e da conformidade legal (veja mais detalhes na seção Notas).

Conhecer o nível de desmatamento minerário que ocorre dentro de seus limites é importante porque, embora não seja ilegal, pode ser considerável, visto que o Corredor de Mineração cobre uma grande área de quase meio milhão de hectares (498.296 ha).

De fato, estimamos o desmatamento por mineração de 18.174 hectares dentro do Corredor de Mineração nos últimos três anos (2021-2023).

Além disso, identificamos o desmatamento minerário de 5.707 hectares fora do Corredor de Mineração , ou seja, em áreas proibidas e, portanto, com provável mineração ilegal .

Consequentemente, encontramos um desmatamento total de mineração de 23.881 hectares (59.011 acres) durante este período (2021-2023) no sul do Peru.

Desse total, 76% do desmatamento ocorreu dentro do Corredor de Mineração, enquanto os 24% restantes correspondem à mineração ilegal no entorno.

Mapa Base: Desmatamento Minerário na Amazônia Sul Peruana

O Mapa Base destaca o desmatamento de mineração mais recente nos anos de 2021-2023 (mostrado em vermelho ) em relação à perda histórica de florestas na área (mostrada em preto), tanto dentro quanto fora do Corredor de Mineração.

Mapa base. Desmatamento minerário dentro e fora do Corredor Mineiro Madre de Dios, na Amazônia meridional do Peru, durante os anos de 2021 e 2023. Dados: ACCA/MAAP.

Note que o desmatamento da mineração está concentrado dentro do Corredor de Mineração , representando 76% do total. Isso é especialmente evidente na área de mineração de Guacamayo (Veja Zooms A e B ) e ao longo do Rio Madre Dios.

O restante do desmatamento de mineração (24%) está fora do Corredor de Mineração. A maior parte desse desmatamento está ocorrendo nas 10 Comunidades Indígenas da área, cobrindo 3.406 hectares. As comunidades mais afetadas são Barranco Chico ( Zoom C ), San José de Karene, Tres Islas e Kotsimba.

O desmatamento por mineração também foi identificado em zonas de amortecimento de áreas naturais protegidas . As mais afetadas são a Reserva Nacional de Tambopata, o Parque Nacional Bahuaja Sonene e a Reserva Comunal de Amarakaeri. No entanto, deve-se enfatizar que a mineração dentro de áreas naturais protegidas tem sido efetivamente controlada pelo Estado peruano, por meio do Serviço Nacional de Áreas Naturais Protegidas (SERNANP).

Além disso, uma certa quantidade de desmatamento por mineração (161 hectares) foi detectada em concessões florestais de castanha-do-brasil localizadas na área de Pariamanu ( Zoom D ).

Por fim, vale mencionar uma área de importância na zona de amortecimento da Reserva Nacional de Tambopata, conhecida como La Pampa ( Zoom E ). Esta área foi o epicentro do desmatamento destrutivo da mineração entre 2014 e 2018. No entanto, as imagens revelam que após a Operação Mercurio, que começou no início de 2019, a expansão do desmatamento da mineração em La Pampa basicamente parou. Apesar disso, um relatório recente mostrou um grande aumento na atividade de mineração em áreas previamente desmatadas de La Pampa ( MAAP #193).

Zooms de alta resolução (AE)

Os seguintes zooms de alta resolução comparam o desmatamento de mineração entre o ano de 2020 (painel esquerdo) e o período atual de 2023 (painel direito). Os zooms A e B estão localizados dentro do Corredor de Mineração (área de Guacamayo), enquanto os zooms CE estão localizados fora.

Zoom A. Corredor de Mineração (zona Guacamayo – oeste)

Zoom B. Corredor de Mineração (zona Guacamayo – leste)


Comunidade Indígena Zoom C. Barranco Chico

Zoom D. Concessão de Castanha do Brasil, zona de Pariamanu

Zoom E. La Pampa

Notas

O Corredor Mineiro, designado pelo Decreto Legislativo n.º 1100 como “Zona de mineração de pequena escala e artesanal no departamento de Madre de Dios”, categoriza as atividades de mineração da seguinte forma:

  • Formal: Processo de formalização concluído com licenças ambientais e operacionais aprovadas.
  • Informal: Em processo de formalização; Opera apenas em áreas de extração autorizadas, utiliza maquinário permitido e é considerado uma infração administrativa, não um crime.
  • Ilegal: Opera em áreas proibidas, como corpos d’água (por exemplo, rios ou lagos), usa maquinário proibido, é considerado uma infração criminal e é punível com prisão.

Metodologia

Utilizamos o LandTrendR, um algoritmo de segmentação temporal que identifica mudanças nos valores de pixels ao longo do tempo, para detectar perdas florestais dentro do Corredor de Mineração entre 2021 e 2023 usando a plataforma Google Earth Engine. É importante notar que este método foi originalmente projetado para imagens Landsat com resolução moderada (30 metros) 1 , mas o adaptamos para mosaicos mensais NICFI-Planet de maior resolução espacial (4,7 metros). 2

Além disso, criamos uma linha de base para o período de 2016-2020 para eliminar áreas antigas desmatadas (antes de 2021) devido a mudanças rápidas no processo de regeneração natural.

Por fim, separamos manualmente a perda florestal devido à mineração e outras causas entre 2021 e 2023 para relatar especificamente os impactos diretos relacionados à mineração. Para esta parte da análise, usamos vários recursos para auxiliar o processo manual, como alertas de imagem de radar (RAMI) do programa SERVIR Amazônia, dados históricos do CINCIA de 1985 a 2020, dados de perda florestal do governo peruano (Programa Nacional de Conservação Florestal para Mitigação das Mudanças Climáticas) e da Universidade de Maryland.

  1. Kennedy, RE, Yang, Z., Gorelick, N., Braaten, J., Cavalcante, L., Cohen, WB, Healey, S. (2018). Implementação do Algoritmo LandTrendr no Google Earth Engine. Sensoriamento Remoto. 10, 691.
  2. Erik Lindquist, FAO, 2021

Reconhecimentos

Este relatório foi preparado com o apoio técnico da USAID por meio do Prevent Project. O Prevent (Proyecto Prevenir em espanhol) trabalha com o Governo do Peru, a sociedade civil e o setor privado para prevenir e combater crimes ambientais para a conservação da Amazônia peruana, particularmente nas regiões de Loreto, Madre de Dios e Ucayali.

Aviso Legal: Esta publicação é possível graças ao generoso apoio do povo americano por meio da USAID. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva dos autores e não reflete necessariamente as opiniões da USAID ou do Governo dos Estados Unidos.

 

Citation

Finer M, Mamani N, Ariñez A (2023) Gold Mining Deforestation in the Southern Peruvian Amazon, 2021-2023. MAAP: 195.

MAAP #197: Mineração ilegal de ouro na Amazônia

Exemplo de grande zona de mineração de ouro na Amazônia peruana.

A mineração ilegal de ouro  continua sendo um dos principais problemas enfrentados por quase todos os países amazônicos.

De fato, após a recente cúpula de alto nível da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica, os líderes das nações assinaram a Declaração de Belém , que contém um compromisso para prevenir e combater a mineração ilegal, incluindo o fortalecimento da cooperação regional e internacional (Objetivo 32).

A mineração ilegal de ouro é uma grande ameaça à Amazônia porque afeta tanto florestas primárias quanto rios , geralmente em áreas remotas e críticas, como  áreas protegidas e territórios indígenas.

Ou seja, a mineração ilegal de ouro é um grande impulsionador do desmatamento e uma fonte de contaminação da água (especialmente mercúrio) na Amazônia.

Anteriormente, no MAAP #178 , apresentamos uma visão geral em larga escala dos principais hotspots de desmatamento de mineração de ouro em todo o bioma da Amazônia. Descobrimos que a mineração de ouro está ativamente causando desmatamento em quase todos os nove países da Amazônia.

Aqui, atualizamos esta análise com duas adições importantes. Primeiro, adicionamos à visão geral as principais operações de mineração de ouro que ocorrem em rios , além daquelas que causam desmatamento (veja a Figura 1 ). Segundo, apresentamos um novo mapa de prováveis ​​locais de mineração ilegal de ouro, com base em informações de parceiros e localização com áreas protegidas e territórios indígenas (veja a Figura 2 ).

Mapa de mineração de ouro da Amazônia atualizado

A Figura 1 é nosso mapa atualizado de mineração de ouro na Amazônia. Os pontos laranja indicam áreas onde a mineração de ouro está atualmente causando desmatamento de florestas primárias. Os pontos azuis indicam áreas onde a mineração de ouro está ocorrendo em rios. Combinados, documentamos 58  locais ativos de mineração florestal e fluvial na Amazônia.

Os pontos destacados em vermelho indicam os locais de mineração que provavelmente são ilegais, tanto para mineração florestal quanto fluvial. Encontramos pelo menos 49 casos de mineração ilegal na Amazônia, a vasta maioria dos locais de mineração ativos observados acima.

Observe as concentrações de mineração ilegal causando desmatamento no sul do Peru, no leste do Brasil e no Equador. Da mesma forma, observe as concentrações de mineração ilegal em rios no norte do Peru e na Colômbia e no Brasil adjacentes.

Figura 1. Mapa atualizado de mineração de ouro na Amazônia. Dados: ACA/MAAP. Clique para ampliar.

Áreas Protegidas e Territórios Indígenas

A Figura 2 acrescenta áreas protegidas e territórios indígenas. Encontramos pelo menos 36 sobreposições conflituosas : 16 em áreas protegidas e 20 em territórios indígenas. Também encontramos mais dois conflitos com as Florestas Nacionais Brasileiras.

Destacamos uma série de zonas de alto conflito. Para áreas protegidas : Parque Nacional Podocarpus no Equador; Parque Nacional Madidi na Bolívia; Parques Nacionais Canaima, Caura e Yapacana na Venezuela. Observamos que o governo peruano tem minimizado efetivamente as invasões em áreas protegidas na região sul de Madre de Dios (Reserva Nacional Tambopata e Reserva Comunal Amarakaeri). Para territórios indígenas : Kayapo, Menkragnoti, Yanomami e Mundurucu no Brasil; Pueblo Shuar Arutam no Equador e uma série de comunidades no sul do Peru.

Figura 1. Mapa de mineração de ouro na Amazônia, com áreas protegidas e territórios indígenas. Dados: ACA/MAAP, RAISG. Clique para ampliar.

Métodos

Os locais de mineração baseados em florestas exibidos na Figura 1 são amplamente baseados em informações obtidas ao longo dos últimos anos de nosso trabalho de monitoramento de desmatamento. Os locais baseados em rios são amplamente baseados em informações obtidas de parceiros no país e no solo.

Complementamos essas informações com dados automatizados e baseados em máquinas do Amazon Mining Watch e dados do RAISG . Para essas fontes, verificamos imagens recentes e incluímos apenas sites que pareciam ainda estar ativos.

A classificação como local de mineração ilegal é amplamente baseada na localização dentro de áreas protegidas ou territórios indígenas, ou claramente fora de uma zona de mineração autorizada.

Citação

Finer M, Mamani N, Arinez A, Novoa S, Larrea-Alcázar D, Villa J (2023) Mineração ilegal de ouro na Amazônia. MAAP: 197.

MAAP #183: Áreas Protegidas e Territórios Indígenas Eficazes Contra o Desmatamento na Amazônia

Mapa base. Perda de floresta primária (2017-21) na Amazônia, em relação a áreas protegidas e territórios indígenas.

Como o desmatamento continua a ameaçar as florestas primárias na Amazônia, as principais  designações de uso da terra  são uma das melhores esperanças para a conservação a longo prazo das florestas intactas restantes.

Aqui, avaliamos o impacto de dois dos mais importantes:  áreas protegidas e territórios indígenas .

Nosso estudo analisou todos os nove países do bioma Amazônia, uma vasta área de 883,7 milhões de hectares (ver  Mapa Base ).

Calculamos  a perda de floresta primária  nos últimos 5 anos ( 2017-2021 ).

Pela primeira vez, conseguimos distinguir a perda florestal causada por fogo da não causada por fogo. Para não causada por fogo, embora isso inclua eventos naturais (como deslizamentos de terra e tempestades de vento), consideramos este nosso melhor proxy para o desmatamento causado pelo homem .

Analisamos os resultados em três categorias principais de uso do solo:

1)  Áreas Protegidas  (níveis nacional e estadual/departamental), que cobrem 197 milhões de hectares (23,6% da Amazônia).

2)  Territórios Indígenas  (oficiais), que abrangem 163,8 milhões de hectares (19,6% da Amazônia).

3)  Outras  (todas as áreas restantes fora das unidades de conservação e territórios indígenas), que abrangem 473 milhões de hectares (56,7% da Amazônia).

Em resumo , descobrimos que o desmatamento foi o principal impulsionador da perda florestal, com o fogo sempre sendo um subconjunto menor. Em média, em todos os 5 anos, áreas protegidas e territórios indígenas tiveram níveis semelhantes de eficácia, reduzindo a taxa de perda de floresta primária em 3x em comparação com áreas fora dessas designações .

Abaixo, mostramos os principais resultados na Amazônia com mais detalhes, incluindo uma análise para a Amazônia ocidental (Bolívia, Colômbia, Equador e Peru) e a Amazônia brasileira.

Principais conclusões

Bioma amazônico

Documentamos a perda de 11 milhões de hectares de florestas primárias em todos os nove países do bioma Amazônia entre 2017 e 2021. Desse total, 71% não foi causado por fogo (desmatamento e natural) e 29% foi causado por fogo.

Para as principais categorias de uso da terra, 11% da perda florestal ocorreu em áreas protegidas e territórios indígenas, respectivamente, enquanto os 78% restantes ocorreram fora dessas designações.

Para padronizar esses resultados para as coberturas de áreas variáveis, calculamos taxas anuais de perda de floresta primária  (perda/área total de cada categoria).  A Figura 1  exibe os resultados para essas taxas em todos os nove países do bioma Amazônia.

Figura 1. Taxas de perda de florestas primárias na Amazônia, 2017-21.

Dividido por ano, 2017 teve as maiores taxas de perda florestal, com uma temporada severa de desmatamento e incêndios. Além disso, 2021 teve a segunda maior taxa de desmatamento, enquanto 2020 teve a segunda maior taxa de perda por incêndios.

Na média dos cinco anos,  as áreas protegidas  (verde) tiveram a menor taxa geral de perda de floresta primária (0,12%), seguidas de perto pelos  territórios indígenas  (0,14%).

Curiosamente, os territórios indígenas (laranja) tiveram uma taxa de desmatamento ligeiramente menor em comparação às áreas protegidas (0,7 vs 0,8%), mas uma taxa de perda por incêndio maior (0,7 vs 0,04%), resultando na maior taxa geral de perda florestal observada acima.

Fora dessas designações ( vermelho ), a taxa de perda de floresta primária foi tripla (0,36%), especialmente devido ao desmatamento muito maior.

Amazônia Ocidental

Analisando os resultados especificamente para a Amazônia Ocidental (Bolívia, Colômbia, Equador e Peru), documentamos a perda de 2,6 milhões de hectares de florestas primárias entre 2017 e 2021. Desse total, 80% não foram causados ​​por incêndios (desmatamento e naturais) e 20% foram causados ​​por incêndios.

Para as principais categorias de uso da terra, 9,6% ocorreram em áreas protegidas, 15,6% em territórios indígenas e os 74,8% restantes ocorreram fora dessas designações.

A Figura 2  exibe as taxas padronizadas de perda de florestas primárias na Amazônia ocidental.

Figura 2. Taxas de perda de florestas primárias na Amazônia Ocidental, 2017-21.

Dividido por ano, 2017 teve a maior taxa de desmatamento e taxas gerais de perda florestal. Mas 2020 teve a maior taxa de perda por incêndio, principalmente devido a incêndios extensos na Bolívia. 2021 também teve uma taxa de desmatamento relativamente alta. Além disso, observe o alto nível de incêndios em áreas protegidas em 2020 e 2021, e em territórios indígenas em 2019.

Na média dos cinco anos,  as áreas protegidas tiveram a menor taxa geral de perda de floresta primária (0,11%), seguidas pelos  territórios indígenas  (0,16%).

Fora dessas designações, a taxa de perda de floresta primária foi de 0,30%. Ou seja, o triplo da taxa de áreas protegidas e o dobro da taxa de territórios indígenas.

Amazônia brasileira

Analisando os resultados especificamente para a Amazônia brasileira, documentamos a perda de 8,1 milhões de hectares de florestas primárias entre 2017 e 2021. Desse total, 68% não foram causados ​​por incêndios (desmatamento e naturais) e 32% foram causados ​​por incêndios.

Para as principais categorias de uso da terra, 9,4% ocorreram em territórios indígenas, 11,2% ocorreram em áreas protegidas e os 79,4% restantes ocorreram fora dessas designações.

A Figura 3  exibe as taxas padronizadas de perda de florestas primárias na Amazônia brasileira.

Figura 3. Taxas de perda de floresta primária na Amazônia brasileira, 2017-21.

Dividido por ano, 2017 teve a maior taxa de perda florestal registrada em todo o estudo (0,58%), devido tanto ao desmatamento elevado quanto ao fogo. Observe que os territórios indígenas foram particularmente impactados pelo fogo em 2017.

2020 teve a próxima maior taxa de perda florestal, também impulsionada por uma intensa temporada de incêndios. Os incêndios não foram tão severos no ano seguinte, em 2021, mas o desmatamento aumentou.

Na média dos cinco anos, os territórios indígenas  tiveram a menor taxa geral de perda de floresta primária (0,14%), seguidos de perto pelas  áreas protegidas  (0,15%).

Curiosamente, os territórios indígenas tiveram uma taxa de desmatamento menor em comparação às áreas protegidas (0,5 vs 0,11%), mas maior impacto de incêndios (0,09 vs 0,04%).

Fora dessas designações ( vermelho ), a taxa de perda de floresta primária foi tripla (0,45%).

Metodologia

Para estimar o desmatamento em todas as três categorias (áreas protegidas, territórios indígenas e outros), usamos dados anuais de perda florestal (2017-21) da Universidade de Maryland (laboratório Global Land Analysis and Discovery GLAD) para ter uma fonte consistente em todos os países (Hansen et al 2013).

Obtivemos esses dados, que têm uma resolução espacial de 30 metros, da página de download de dados “Global Forest Loss due to Fires 2000–2021” . Também é possível visualizar e interagir com os dados no portal principal Global Forest Change .

Os dados anuais são desagregados em perda florestal devido a incêndio vs. não incêndio (outros drivers de perturbação). É importante notar que os drivers não incêndio incluem tanto o desmatamento causado pelo homem quanto a perda florestal causada por forças naturais (deslizamentos de terra, tempestades de vento, etc.).

Também filtramos esses dados apenas para perda de floresta primária, seguindo a metodologia estabelecida do Global Forest Watch. Floresta primária é geralmente definida como floresta intacta que não foi previamente desmatada (ao contrário de floresta secundária previamente desmatada, por exemplo). Aplicamos esse filtro cruzando os dados de perda de cobertura florestal com o conjunto de dados adicional “florestas tropicais úmidas primárias” de 2001 (Turubanova et al 2018). Assim, frequentemente usamos o termo “ perda de floresta primária ” para descrever esses dados filtrados.

Os dados apresentados como taxa de perda de floresta primária são padronizados pela área total coberta de cada categoria respectiva por ano (anual). Por exemplo, para comparar adequadamente os dados brutos de perda de floresta em áreas que são de 100 hectares vs 1.000 hectares de tamanho total, respectivamente, dividimos pela área para padronizar o resultado.

Nossa distribuição geográfica se estende dos Andes até a planície amazônica e alcança as transições com o Cerrado e o Pantanal. Essa distribuição inclui nove países da Amazônia (ou região Pan-Amazônica, conforme definido pela RAISG) e consiste em uma combinação do limite da bacia hidrográfica da Amazônia, o limite biogeográfico da Amazônia e o limite da Amazônia Legal no Brasil. Veja o Mapa Base acima para a delimitação desse limite híbrido da Amazônia, projetado para inclusão máxima.

Fontes de dados adicionais incluem:

  • Áreas protegidas em nível nacional e estadual/departamental: RUNAP 2020 (Colômbia), SNAP 2022 (Equador), SERNAP e ACEAA 2020 (Bolívia), SERNANP 2022 (Peru), INPE/Terrabrasilis 2022 (Brasil), SOS Orinoco 2021 (Venezuela) e RAISG 2020 (Guiana, Suriname e Guiana Francesa).
  • Territórios indígenas: RAISG e Ecociencia 2022 (Equador), INPE/Terrabrasilis 2022 (Brasil), RAISG 2020 (Colômbia, Bolívia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa) e MINCU e ACCA 2021 (Peru). Para o Peru, isso inclui comunidades nativas tituladas e Reservas Indígenas/Territoriais para grupos indígenas em isolamento voluntário.

Para análise, categorizamos primeiro as Áreas Protegidas, depois os Territórios Indígenas para evitar áreas sobrepostas. Cada categoria foi desagregada por ano de criação/reconhecimento para corresponder ao relatório anual de perda florestal, por exemplo. Se uma área protegida foi criada em dezembro de 2018, ela seria considerada na análise para o ano de 2019.

Reconhecimentos

Este trabalho foi apoiado pelo Fundo Andino-Amazônico (AAF), pela Agência Norueguesa de Cooperação para o Desenvolvimento (NORAD) e pelo Fundo Internacional de Conservação do Canadá (ICFC).

Agradecemos a M. MacDowell e M. Cohen pelos comentários úteis sobre este relatório.

Citação

Finer M, Mamani N (2023) Áreas protegidas e territórios indígenas eficazes contra o desmatamento na Amazônia. MAAP: 176.

MAAP #155: Pontos críticos de desmatamento na Amazônia venezuelana

Mapa base da Amazônia. Fluxo de carbono florestal na Amazônia, 2001-2020. Dados: Harris et al 2021. Análise: Amazon Conservation/MAAP.

Apresentamos aqui o primeiro relatório de uma série focada na Amazônia venezuelana , que abrange mais de 47 milhões de hectares da parte norte do bioma amazônico (acima do oeste do Brasil).

Como indica o Mapa Base da Amazônia, a Venezuela é uma parte fundamental do restante da Amazônia , que ainda funciona como um importante sumidouro de carbono, o que a torna uma peça importante para estratégias de conservação de longo prazo.

Entretanto, o desmatamento tem aumentado nos últimos anos (veja o gráfico no Mapa Base), indicando ameaças crescentes.

Especificamente, há uma tendência clara de aumento da perda de florestas primárias desde 2015, incluindo um pico recente em 2019.

Estimamos a perda de mais de 140.000 hectares (345.000 acres) nos últimos quatro anos, o que representa 1,6% da perda total na Amazônia durante esse período.

Abaixo, investigamos os principais focos e impulsionadores do desmatamento atualmente na Amazônia venezuelana.

Mapa base da Venezuela. Pontos críticos de perda de floresta primária na Amazônia venezuelana nos últimos quatro anos (2017-2020). UMD/GLAD, MAAP.

O mapa base da Venezuela mostra os principais focos de perda de florestas primárias na Amazônia venezuelana nos últimos quatro anos (2017-2020).

Observe que a maioria dos pontos críticos está dentro do Arco de Mineração do Orinoco, uma grande área de mais de 11 milhões de hectares criada por um controverso decreto presidencial em 2016, projetado para promover a mineração (SOSOrinoco 2021), bem como dentro e ao redor da extensa rede de áreas protegidas.

Essas áreas protegidas cobrem 43% (20 milhões de hectares) da Amazônia venezuelana e foram responsáveis ​​por cerca de 30% da perda total de florestas. As áreas mais impactadas nos últimos anos são os Parques Nacionais Caura, Canaima e Yapacana (mais de 22.000 hectares combinados).

Ampliamos esses pontos críticos e descobrimos que mineração, incêndios e agricultura (incluindo pastagens para gado) são os três principais impulsionadores do desmatamento na Amazônia venezuelana. Pode haver interações complexas entre esses impulsionadores, como centros de mineração levando a incêndios e expansão agrícola para dar suporte à nova população de mineradores.

Vale ressaltar que a Venezuela se junta ao Peru, Brasil e Suriname como países onde a mineração está agora documentada como responsável ativa pelo grande desmatamento de florestas primárias.

Também notamos que, como no resto da Amazônia, virtualmente todos os incêndios são causados ​​por humanos (ou seja, não eventos naturais) e a maioria provavelmente está ligada à preparação da terra para atividades agrícolas. Durante períodos mais secos, esses incêndios podem escapar, causando incêndios florestais maiores.

Abaixo, ilustramos esses drivers em uma série de imagens de alta resolução (3 metros) e altíssima resolução (0,5 metros).

Zooms de alta resolução

Mineração

Zoom A1. Desmatamento de mineração no Parque Nacional Yapacana. Dados: Planet/Skysat

Parque Nacional Zoom A. Yapacana

O Parque Nacional Yapacana, que é um mosaico único de savanas e florestas naturais, está atualmente sofrendo impactos de desmatamento devido a operações de mineração ativas.

Mostramos dois exemplos de mineração recente no setor de mineração de Cerro Yapacana, apresentando imagens de altíssima resolução do final de 2021 (veja Zooms A1 e A2).

Essas duas áreas perderam mais de 550 hectares desde o início dos anos 2000.

Zoom A2. Desmatamento de mineração no Parque Nacional Yapacana. Dados: Planet/Skysat.
Zoom B1. Desmatamento de mineração no Parque Nacional de Caura. Dados: Planet/Skysat.

Zoom B. Parque Nacional Caura

O Parque Nacional Caura também está vivenciando uma atividade de mineração ativa. Abaixo estão dois exemplos de atividade de mineração recente, apresentando imagens de altíssima resolução do início de 2022 (veja Zooms B1 e B2).

 

Zoom B2. Desmatamento de mineração no Parque Nacional de Caura. Dados: Planet/Skysat.

Zoom C. Parque Nacional Canaima

A imagem a seguir mostra a recente expansão do desmatamento para mineração no Parque Nacional Canaima entre 2017 (painel esquerdo) e 2020 (painel direito).

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Zoom C. Desmatamento de mineração no Parque Nacional Canaima. Dados: Planet/Skysat.

Zoom D: Arco de Mineração do Orinoco

Ao norte dessas áreas protegidas, há desmatamento de mineração industrial e fluvial no Arco de Mineração do Orinoco. O Zoom D mostra um exemplo de grande desmatamento de mineração fluvial (mais de 1.800 hectares) entre 2017 e 2020, além de imagens de altíssima resolução do final de 2021.

Zoom D. Desmatamento de mineração no Arco Mineiro do Orinoco. Dados: Planet.

Agricultura

O Zoom E mostrou um exemplo de expansão agrícola (provavelmente criação de gado) na seção nordeste do Arco de Mineração do Orinoco. Estimamos que a perda florestal mostrada nos painéis entre 2017 e 2020 seja de mais de 400 hectares.

Zoom E. Desmatamento agrícola no Arco Mineiro do Orinoco. Dados: Planet.

Fogo

Por fim, os Zooms F e G mostram exemplos recentes de grandes impactos de incêndios. O Zoom F é uma área que sofreu grandes incêndios em 2019 dentro e ao redor do Parque Nacional Canaima. Estimamos que a perda florestal mostrada nos painéis entre 2017 e 2020 seja de 1.175 hectares.

Zoom F. Grandes incêndios em 2019 dentro e ao redor do Parque Nacional Canaima. Dados: Planet.

Zoom G é uma área que sofreu grandes incêndios em 2020 nos locais de mineração próximos na seção ocidental do Arco de Mineração do Orinoco. Estimamos que a perda florestal mostrada nos painéis entre 2017 e 2020 seja de 1.128 hectares.

Zoom G. Grandes incêndios em 2020 no Arco Mineiro do Orinoco. Dados: Planet.

Metodologia

Para uma área de estudo com inclusão máxima, para a Amazônia venezuelana, usamos o limite biogeográfico mais amplo (conforme definido pela RAISG) em vez do limite estrito da bacia hidrográfica da Amazônia (que na verdade inclui apenas uma pequena parte da Venezuela).

Obtivemos dados para o Arco Minerador do Orinoco (Arco Minero del Orinoco) e áreas protegidas da organização SOSOrinoco. O último conjunto de dados contém Áreas Sob Regime de Administração Especial (Áreas Bajo Régimen de Administración Especial – ABRAE), que atendem à definição internacional de áreas protegidas da IUCN: parques nacionais, monumentos naturais, refúgios de vida selvagem, reservas e santuários.

Usamos dados de “perda de floresta primária” como nosso proxy para o desmatamento anual de 2002-2020. Esses dados de resolução de 30 metros (com base no Landsat) são produzidos pela Universidade de Maryland e apresentados pela Global Forest Watch. Observe que eles incluem perdas florestais por incêndios e causas naturais. Os dados de alerta de alerta precoce de 2021 também são da Universidade de Maryland.

Para identificar os principais hotspots de perda florestal, conduzimos uma estimativa de densidade kernel. Esse tipo de análise calcula a magnitude por unidade de área de um fenômeno específico, nesse caso, a perda de cobertura florestal. Conduzimos essa análise usando a ferramenta Kernel Density do Spatial Analyst Tool Box do ArcGIS.

Por fim, investigamos os principais pontos críticos com imagens de satélite de alta resolução (3 metros) e de altíssima resolução (0,5 metros) da empresa Planet para identificar as causas (fatores determinantes).

Referências

SOSOrinoco. 2021. Desmatamento e mudanças na vegetação e cobertura do uso da terra dentro do chamado Arco de Mineração do Orinoco entre 2000-2020 .

Reconhecimentos

Agradecemos à organização SOSOrinoco pelas informações e comentários importantes relacionados a este relatório

Citação

Finer M, Mamani N (2022) Pontos críticos de desmatamento na Amazônia venezuelana. MAAP: 155.

MAAP #153: Pontos críticos de desmatamento na Amazônia 2021

Mapa Base da Amazônia. Pontos críticos de desmatamento na Amazônia em 2021 (até 18 de setembro). Dados: UMD/GLAD, ACA/MAAP.

Apresentamos uma primeira olhada nos principais pontos críticos de desmatamento da Amazônia em 2021. *

O Mapa Base da Amazônia ilustra várias descobertas importantes :

  • Estimamos a perda de mais de 1,9 milhões de hectares (4,8 milhões de acres) de floresta primária nos nove países do bioma Amazônia em 2021.

  • Isso corresponde aos dois anos anteriores, elevando o desmatamento total para 6 milhões de hectares (15 milhões de acres) desde 2019, aproximadamente o tamanho do estado da Virgínia Ocidental.

  • Em 2021, a maior parte do desmatamento ocorreu no Brasil (70%) , seguido pela Bolívia (14%), Peru (7%) e Colômbia (6%).
  • No Brasil , os hotspots estão concentrados ao longo das principais redes rodoviárias. Muitas dessas áreas também foram queimadas após o desmatamento.

  • Na Bolívia , os incêndios mais uma vez impactaram vários ecossistemas importantes, incluindo as florestas secas de Chiquitano.
  • No Peru , o desmatamento continua a impactar a região central, principalmente devido ao desmatamento em grande escala para uma nova colônia menonita
  • Na Colômbia , continua havendo um arco de desmatamento que afeta inúmeras áreas protegidas e territórios indígenas.

Abaixo , ampliamos os quatro países com maior desmatamento (Brasil, Bolívia, Peru e Colômbia), com mapas e análises adicionais.

Mapa Base do Brasil. Pontos críticos de desmatamento na Amazônia brasileira. Dados: UMD/GLAD, ACA/MAAP.

Amazônia brasileira

O Mapa Base do Brasil mostra a notável concentração de focos de desmatamento ao longo das principais rodovias (especialmente as rodovias 163, 230, 319 e 364) nos estados do Acre, Amazonas, Pará e Rondônia.

Mapa Base da Bolívia. Pontos críticos de desmatamento na Amazônia boliviana. Dados: UMD/GLAD, ACA/MAAP.

Amazônia boliviana

O Mapa Base da Bolívia mostra a concentração de focos de incêndios de grandes proporções no bioma de floresta seca de Chiquitano, localizado principalmente no departamento de Santa Cruz, na região sudeste da Amazônia.

Mapa Base do Peru. Pontos críticos de desmatamento na Amazônia peruana. Dados: UMD/GLAD, ACA/MAAP.

Amazônia peruana

O Mapa Base do Peru mostra a concentração do desmatamento na Amazônia central (região de Ucayali).

Destacamos o rápido desmatamento (365 hectares) para uma nova colônia menonita em 2021, perto da cidade de Padre Márquez (ver MAAP #149 ).

Observe também alguns pontos críticos adicionais no sul (região de Madre de Dios), mas eles são em grande parte devido à expansão da agricultura e não ao motor histórico da mineração de ouro.

De fato, o desmatamento da mineração de ouro foi bastante reduzido devido às ações do governo, mas essa atividade ilegal ainda ameaça diversas áreas importantes e territórios indígenas ( MAAP #130 ).

Mapa base da Colômbia. Pontos críticos de desmatamento no noroeste da Amazônia colombiana. Dados: UMD/GLAD, ACA/MAAP.

Amazônia Colombiana

Conforme descrito em relatórios anteriores (ver MAAP #120 ), o Mapa Base da Colômbia mostra que continua a haver um “arco de desmatamento” na Amazônia noroeste colombiana (departamentos de Caquetá, Meta e Guaviare).

Este arco afeta inúmeras Áreas Protegidas (particularmente os Parques Nacionais Tinigua e Chiribiquete) e Reservas Indígenas (particularmente Yari-Yaguara II e Nukak Maku).

*Notas e Metodologia

A análise foi baseada em alertas de perda de floresta primária com resolução de 10 metros (GLAD+) produzidos pela Universidade de Maryland e também apresentados pela Global Forest Watch. Esses alertas são derivados do satélite Sentinel-2 operado pela Agência Espacial Europeia.

Ressaltamos que esses dados representam uma estimativa preliminar e dados anuais mais definitivos serão divulgados no final do ano.

Também observamos que esses dados incluem perdas florestais causadas por forças naturais e áreas queimadas.

Nossa distribuição geográfica na Amazônia é um híbrido entre o limite biogeográfico (conforme definido pela RAISG) e o limite da bacia hidrográfica, projetado para inclusão máxima.

Para identificar os hotspots de desmatamento, conduzimos uma estimativa de densidade kernel. Esse tipo de análise calcula a magnitude por unidade de área de um fenômeno específico, nesse caso, a perda de cobertura florestal. Conduzimos essa análise usando a ferramenta Kernel Density do Spatial Analyst Tool Box do ArcGIS. Usamos os seguintes parâmetros:

Raio de busca: 15.000 unidades de camada (metros)
Função de densidade do kernel: Função do kernel quártico
Tamanho da célula no mapa: 200 x 200 metros (4 hectares)
Todo o resto foi deixado na configuração padrão.

Para o Mapa Base, usamos os seguintes percentuais de concentração: Médio: 5-7%; Alto: 7-14%; Muito Alto: >14%.

Reconhecimentos

Este trabalho foi apoiado pela NORAD (Agência Norueguesa para Cooperação para o Desenvolvimento) e pelo ICFC (Fundo Internacional de Conservação do Canadá).

Citação

Finer M, Mamani N, Spore J (2022) Pontos críticos de desmatamento na Amazônia 2021. MAAP: 153.

MAAP #144: A Amazônia e as mudanças climáticas: sumidouro de carbono vs fonte de carbono

Mapa base. Fluxo de carbono florestal na Amazônia, 2001-2020. Dados: Harris et al 2021. Análise: Amazon Conservation/MAAP.

Dois estudos científicos recentes revelaram que partes da Amazônia agora emitem mais carbono na atmosfera do que absorvem (Gatti et al 2021, Harris et al 2021).

Aqui, nos aprofundamos e destacamos a principal descoberta: a Amazônia brasileira se tornou uma fonte líquida de carbono nos últimos 20 anos, enquanto a Amazônia total ainda é um sumidouro líquido de carbono .

Também mostramos que áreas protegidas e territórios indígenas são sumidouros de carbono cruciais , mostrando mais uma vez sua importância e eficácia para a conservação geral da Amazônia ( MAAP #141 ).

Um dos estudos notáveis ​​(Harris et al 2021) apresentou um novo sistema de monitoramento global para o fluxo de carbono florestal com base em dados de satélite.

Aqui, analisamos esses dados de forma independente com foco na Amazônia .*

O fluxo é a diferença crucial entre as emissões de carbono florestal (como o desmatamento) e as remoções da atmosfera (como florestas intactas e regeneração).

Um fluxo negativo indica que as remoções excedem as emissões e a área é um sumidouro de carbono , amortecendo assim a mudança climática. O Mapa Base ilustra esses sumidouros em verde .

Um fluxo positivo indica que as emissões excedem as remoções e a área se tornou uma fonte de carbono , exacerbando assim a mudança climática. O Mapa Base ilustra essas fontes em vermelho .

Abaixo, ilustramos os resultados do fluxo de carbono e, em seguida, focamos em alguns dos principais sumidouros de carbono (como áreas protegidas e territórios indígenas) e fontes de carbono (áreas de alto desmatamento) na Amazônia.

Fluxo de Carbono da Amazônia

Os dois gráficos abaixo mostram os níveis de remoções de carbono em verde e as emissões de carbono em vermelho  na Amazônia ocidental (Bolívia, Colômbia, Equador e Peru), Amazônia nordeste (Guiana Francesa, Guiana, Suriname e Venezuela), Amazônia brasileira e Amazônia total. O fluxo de carbono resultante é destacado em rosa .

As setas destacam três resultados críticos:

  • A Amazônia brasileira se tornou uma fonte líquida de carbono (fluxo positivo indicado pela seta amarela no Gráfico 1). Ou seja, as emissões agora excedem as remoções (3.600 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente nos últimos 20 anos), agravando as mudanças climáticas.
  • A Amazônia total ainda é um sumidouro líquido de carbono (fluxo negativo indicado pela seta azul no Gráfico 1). Ou seja, as remoções ainda excedem as emissões (-1.700 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente nos últimos 20 anos), ajudando a mitigar as mudanças climáticas, principalmente graças ao papel da Amazônia ocidental e nordeste.

Áreas protegidas e territórios indígenas são sumidouros de carbono eficazes , enquanto outras áreas fora dessas designações principais são a principal fonte de carbono (fluxo positivo indicado pela seta laranja no Gráfico 2).

Gráfico 1. Fluxo de carbono na Amazônia, 2001-20. Dados: Harris et al 2021. Análise: Amazon Conservation/MAAP.
Gráfico 2. Fluxo de carbono na Amazônia, 2001-20. Dados: Harris et al 2021. Análise: Amazon Conservation/MAAP.

Principais sumidouros de carbono da Amazônia: áreas protegidas e territórios indígenas

Os zooms 1 e 2 mostram dois grandes sumidouros de carbono na Amazônia ocidental .

O Zoom 1 foca na Amazônia noroeste, que se estende por quatro países (Brasil, Peru, Colômbia e Equador). Esta região inclui grandes áreas protegidas (como o Parque Nacional Yasuni no Equador, o Parque Nacional Chiribiquete na Colômbia e o Parque Nacional Yaguas no Peru) e territórios indígenas (como o Vale do Javari no Brasil).

O Zoom 2 foca na Amazônia sudoeste, que se estende por três países (Brasil, Peru e Bolívia). Esta região também inclui grandes áreas protegidas (como os Parques Nacionais Alto Purus, Manu e Bahuaja Sonene no Peru e o Parque Nacional Madidi na Bolívia).

Mapa base: sumidouros de carbono da Amazônia, indicados pelos inserções 1 e 2. Dados: Harris et al 2021.

 

Principais fontes de carbono da Amazônia: áreas de alto desmatamento

Os zooms AH mostram oito principais fontes de carbono na Amazônia Ocidental .

Os zooms A e B mostram duas das principais frentes de desmatamento na Amazônia brasileira. O zoom A mostra o desmatamento massivo ao redor da cidade de Porto Velho, no estado de Rondônia e perto da divisa com o estado do Amazonas. O zoom B mostra o desmatamento massivo ao longo da rodovia BR-163 no estado do Pará.

Mapa base: fontes de carbono da Amazônia, indicadas pelas letras AG. Dados: Harris et al 2021.

Passando para a Amazônia ocidental, o Zoom C mostra o arco de desmatamento no noroeste da Amazônia colombiana e o Zoom D mostra a maior frente de desmatamento no norte da Amazônia equatoriana.

Os zooms E e F mostram duas das principais frentes de desmatamento na Amazônia peruana. O zoom E mostra o desmatamento em larga escala de plantações de óleo de palma e uma nova colônia menonita no norte. O zoom F mostra a principal frente de desmatamento no sul, ao longo da Rodovia Interoceânica, cercada por mineração de ouro e agricultura de pequena escala.

 

 

Por fim, o Zoom G  mostra o desmatamento ao longo da estrada que liga Rurrenabaque e Ixiamas, incluindo a nova plantação de cana-de-açúcar em grande escala.

 

 

*Metodologia e Notas

O Mapa Base, Figura 1, e os mapas Zoom são baseados em dados de satélite de 30 metros obtidos de Harris et al (2021). Nossa distribuição geográfica incluiu nove países e consiste em uma combinação do limite biogeográfico da Amazônia (conforme definido pela RAISG) mais o limite da bacia hidrográfica da Amazônia na Bolívia. Veja o Mapa Base acima para delinear este limite híbrido da Amazônia, projetado para inclusão máxima.

Referências

Gatti, LV et al (2021) Amazônia como fonte de carbono ligada ao desmatamento e às mudanças climáticas . Nature 595, 388–393.

Harris NL et al (2021) Mapas globais dos fluxos de carbono florestal do século XXI . Nature Climate Change 11, 234-240.

Reconhecimentos

Agradecemos a M. Silman (Wake Forest University), D. Gibbs (WRI), ME Gutierrez (ACCA), D. Larrea (ACEAA), J. Beavers (ACA) e A. Folhadella (ACA) por seus comentários úteis sobre este relatório.

Este trabalho foi apoiado pela Agência Norueguesa para Cooperação para o Desenvolvimento (NORAD) e pelo Fundo Internacional de Conservação do Canadá (ICFC).

Citação

Finer M, Mamani N (2021) A Amazônia e as mudanças climáticas: sumidouro de carbono vs. fonte de carbono. MAAP: 144.